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Em fevereiro desse ano tive contato com o livro “O túnel e a luz” da autora e psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross e desde então venho refletindo sobre a temática da morte e das perdas. Na verdade, o correto a dizer seria em como essas perdas influenciam na vida.

perdas

Como a autora, também não acredito em coincidências; consciente ou inconscientemente, criamos nossa realidade através de atitudes e escolhas que fazemos ao longo da vida. Tais escolhas acabam nos direcionando por um determinado caminho; algumas vezes gostamos e outras não; neste caso, geralmente é possível retornar e ir em outra direção, mas precisamos considerar primeiramente o desejo para que isso aconteça.

Em sua experiência com pacientes em situação de luto, a autora percebe que somente ao final da vida é que os pacientes acabam valorizando as dificuldades vividas, afinal são através delas que ocorrem aprendizagens que nos remetem ao crescimento pessoal. Isso me faz pensar nas publicações que li a respeito do tema resiliência, na qual se refere à capacidade que um indivíduo tem de se recuperar diante de uma adversidade. Quanto mais resilientes formos, maior será nosso nível de saúde e bem-estar.

No dia 31 de janeiro de 2016 quando meu pai partiu definitivamente dessa vida; senti e ainda sinto sua falta. Algumas vezes até me emociono ao lembrar dele. Isso é normal e até saudável. Ele não era uma pessoa carinhosa e não tinha o hábito de expressar seu amor, mas era nos apertos que eu percebia claramente o quanto ele gostava de mim. Por mais que algumas vezes discordasse da minha opinião, sempre me apoiava em todas as minhas decisões. Ele não era uma pessoa perfeita, pelo contrário, tinha seus defeitos, mas escolho guardar comigo o que ele tinha de bom.

Neste momento você pode estar se perguntando por que estou compartilhando algo tão íntimo, e mais, o que isso tem a ver com a saúde e com o bem-estar? A resposta é simples e ao mesmo tempo de uma imensa complexidade. A maioria das pessoas apresentam uma certa resistência em lidar com a morte e com a perda. Mas, desde que nos entendemos por gente sabemos que um dia morreremos e que as pessoas que amamos também partirão. Nesse sentido, tratamos a morte como se ela fosse um bicho papão, e por outro lado, vivemos a vida como se não tivesse fim, mas ela tem!

Quando pensamos na vida, não tem como não pensarmos nas relações humanas; afinal, os seres humanos são seres relacionais. E atualmente, com todo o aparato tecnológico disponível, não estamos valorizando devidamente essas relações. As pessoas, em sua maioria, estão conectadas ao virtual e desconectadas do real. Com isso, a autora aponta o seguinte: “uma das piores mortes que podemos experimentar é exatamente esta: as pessoas se desconectarem de nós”. Além disso, a impressão que tenho é que só valorizamos algumas pessoas depois que as perdemos; e não falo apenas da morte não, mas do cuidado no dia a dia com quem amamos e queremos bem. Já escutei alguns relatos apontando descaso com familiares, apenas por serem familiares, como se isso fosse motivo para descontar suas frustrações. E aí eu te pergunto: como você tem cuidado das suas relações?

Além das relações, outro ponto que acho pertinente abordar se refere ao medo. Algumas pessoas têm tanto medo de morrer, que não se dão conta que baseiam suas escolhas de vida pautadas no medo. Com isso, acabam escolhendo sobreviver por medo de críticas e julgamentos e não se permitem experimentar o melhor que a vida pode oferecer. A preocupação com o que o outro pensará a nosso respeito é algo que muitos vivenciam; além disso, rotulamos o que não compreendemos. E nessa guerra interna, acabamos virando reféns de nós mesmos.

Se quisermos que alguma mudança aconteça no mundo e principalmente em nossas vidas, é necessário fazermos contato com nosso crítico interno e acolhe-lo. É essencial diminuirmos o volume das críticas e dos julgamentos que passam como um filme dentro de nossas cabeças, pois isso só traz negatividade para nossas vidas. Algumas pessoas prestam tanta atenção ao que não gostam e ao que não querem que se esquecem completamente de valorizar o que gostam e o que querem da vida. A partir do momento em que buscamos nos curar: a vida flui.

Precisamos encarar a vida como uma escola, no qual aprendemos diariamente. E como sairemos dela, só depende das escolhas que fizermos. Não basta apenas mudar nossa forma de pensar superficialmente, é preciso entrar realmente em contato com o nosso propósito de vida e com os nossos valores; trabalhar nosso emocional, afinal se não amarmos a nós mesmos, não teremos condição de amar o próximo.

E para finalizar, compartilharei uma citação da Virginia Satir que se encontra no livro:

“Quero amá-lo sem oprimi-lo;
Apreciá-lo sem julgá-lo;
Unir-me à você sem invadi-lo;
Convidá-lo sem nada exigir;
Deixá-lo sem culpa;
Avaliá-lo sem censurá-lo;
E ajudá-lo sem insultá-lo.
Se eu puder ter o mesmo de você, então podemos realmente nos encontrar e enriquecer um ao outro. ”

(Virginia Satir)